ALA DE COMPOSITORES: ESTÃO COM OS DIAS CONTADOS?
15/08/2018 11:11 em Novidades

 

Ala de compositores: estão com os dias contados?

 

Quem acompanha Carnaval o ano todo, sabe que entre Agosto e Outubro é um período decisivo, acalorado e importante no mundo do Carnaval. É a época onde as escolas definem os seus sambas para os desfiles. Porém, nos últimos anos está sendo possível notar que o concurso para definição do samba enredo nas agremiações vem, aos poucos, mas com um aumento gradual, perdendo força.

Podemos notar que a cada carnaval que passa, o número de escolas que optam por encomendar um samba a determinado compositor, ou determinada parceria, cresce. Uma outra prática que pode ser observada, nos últimos 5 anos, é uma quantidade representativa de enredos reeditados, sobretudo nas escolas dos grupos de acesso. Mas, porque optar por isso? Quais fatores influenciam a fazer tal escolha?

Bom... Não é só nos desfiles que “isso aqui virou Hollywood”, hoje disputa de samba, é um evento, aliás é O EVENTO, é vitrine! Você pode chegar com uma obra primorosa, de letra e melodia ímpar, mas se você não tiver condições financeiras de bancar essa obra, dando-lhe um banho de gravação em estúdios bem equipados, dando-lhe uma voz consagrada, um palco competente a cada semana de “sobrevivência”, sua obra cairá no ostracismo (esquecimento). É!Hoje para você “fazer” samba competitivo, não basta talento, caneta e papel... Aqui no Rio, sendo bem “otimista” (supondo que você é um cara de contatos e amizades e que vai descolar “preços camaradas”), você precisa de pelo menos R$ 2000,00 por semana para tentar ir em fases mais adiantadas num concurso de escolha de samba (não estou falando nem em chegar nas fases finais, heim!), afinal é necessário bancar o transporte, a bebida e os adereços para a torcida cenográfica (se não tiver torcida cenográfica, vão falar que a comunidade não quer o seu samba), o bom intérprete e seus apoios devem ser contratados, e o pagamento destes devem ser quitados a cada semana que o seu samba avança na disputa (se você chamar, o seu amigo, que arrisca cantando, ninguém vai dá atenção para a apresentação do seu samba)...

E esse molde, vem sim, acabando, aos poucos com a tradição e a ala de compositores das escolas de samba... Afinal, não são todos eles (quer dizer... a maioria deles) que possuem “cacife” para bancar suas composições dentro do concurso, e mediante a tal cenário, muitos desistem de concorrer, os que ainda insistem, são eliminados na primeira, ou segunda semana, mesmo com obras de qualidade, mas hoje a qualidade não é vista na letra ou na melodia, é vista no marketing,  na gravação que você recebe no WhatsApp, nos vídeos (clipes) no You Tube, e lá no palco com sua equipe de profissionais poderosa e consagrada, além da torcida, com bolas, cartazes e de coro ensaiado... Aí eu questiono: como o singelo compositor, nascido e criado na sua agremiação, morador de área humilde próximo a sede de sua escola de samba, vai competir? Como esse compositor terá a chance de ver sua obra avançar, ou até ganhar o concurso?

A qualidade das obras das grandes, “super”, “mega” parcerias, são, em grande parte inegáveis. O concurso deve eleger o melhor samba, independente de quem seja a obra!  O problema é a desigualdade de recursos... O modelo ao qual decorre as atuais eliminatórias de samba enredo deve ser repensado, regras devem ser estipuladas visando um concurso mais igualitário a todos... Afinal, eu não posso ter um palco de R$10.000,00 para uma obra, e um palco de R$1.500,00 para outra e querer que ambas sejam julgadas de forma igual. Não posso pensar que uma obra que banca 5 ônibus de torcida para quadra, vai ter o mesmo desempenho da obra que vai contar com o apoio de conhecidos e da comunidade (que hoje, em muitas escolas, já quase não frequenta disputa de samba, principalmente na fase inicial).

O investimento é “pesado”, o prêmio para o vencedor também é... A escola que quer que sua disputa figure na mídia, com obras de renomados no ramo, precisa desembolsar um bom dote de recompensa para atrair... O custo para se manter na disputa é caro, mas também é caro o custo, para a agremiação, realizar uma disputa semanalmente. Isso assola, principalmente as escolas de menor porte, que acabam não vendo um retorno que recompense a realização de concurso de samba enredo, onde ela tenha que oferecer um prêmio “gordo”, que acaba não sendo “coberto” pela renda gerada durante toda disputa... O que vem fazendo uma parte, já significativa, das agremiações, de menor porte, optarem por um samba “contratado”, onde há uma economia de custos.

Os sambas contratados, por sua vez, vêm sendo muito bem avaliados, na mídia, pelo público e jurados.... Acabam realmente por apresentarem uma qualidade boa, o que está chamando a atenção e despertando o interesse de outras agremiações (essas com poderio financeiro maior) a seguir o mesmo caminho, garantir nota boa no quesito economizando de forma significativa.

Outras escolas veem uma outra solução para atender não tão somente o lado financeiro, mas também tentar driblar o julgamento falho e alçar voos maiores... Tal caminho é a reedição. Podemos notar que a reedição foi e está sendo um recurso utilizado, de forma mais expressiva, por algumas agremiações na tentativa de fazer um desfile popular, com o apoio e canto dos espectadores (de um samba já consagrado e na boca de todos) na esperança de não amargar um mal resultado na quarta de cinzas ou tentar fugir de uma queda já eminente anunciada pelo histórico do júri.

O fato é que tudo isso comentado, já vem tendo reflexos. Basta você observar com calma... Esse ano (juntando Série A e Grupo Especial) além de 2 reedições, uma música transformada em samba e 5 encomendas de samba-enredo, já temos escolas de samba com uma safra de obras com menos 6 obras na disputa... Com o passar dos anos, se este molde de disputa continuar a figurar como meio principal de vitória, aliado a um julgamento parcial e nada idôneo, a tendência de tal cenário, citado no início do parágrafo, é se tornar cada vez mais frequente e mais representativo.

Rádio Carnavalizando

 

Léo Tenreiro, Agosto de 2018

 

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